ARQUIVO INDIVIDUAL


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29
out

Deitados nesta cama no vazio do quarto respiramos o ar um do outro. Enquanto saboreio o calor que vem de ti penso no dia em que te conheci e no frio que sentia. Chovia como chove agora lá fora. Ouço-te falar com o mesmo tom simpático com que disseste "Olá" e vejo o mesmo sorriso rasgado com que me brindaste naquele primeiro encontro. Se soubesse naquela altura que estaria tão próximo de ti como estou agora, teria certamente fugido em pânico. Baixar defesas nunca foi a minha especialidade e embora goste de ser invisivel para o mundo, não gosto de ser transparente desta forma reveladora. Nesta transparencia vês o meu coração bater forte quando falas. E sei que eventualmente verás que esse coração bate a medo dentro da insegurança do corpo. Cansar-te-ás certamente de lutar contra os teus e os meus demónios e deixar-me-ás sozinho nesta mesma cama num qualquer dia de chuva. E ao pensar isso sinto um frio a percorrer-me o corpo. Agarro-me mais forte ao teu peito e ouço os sons do teu corpo. Sentes-me e perguntas-me se está tudo bem. Não respondo. Olho para ti. Vejo a imensidão do teu olhar azul. "Está tudo bem?" repetes enquanto olhas para mim preocupado. "Em que pensa essa cabeçinha tonta?". Fazes o ar mais terno que tens. Não consigo evitar sorrir envergonhado. Agarras-te tu também com mais força a mim. Trespassas o meu corpo que é teu. Libertas-me ligeiramente. Ah! o calor do teu corpo, fonte segura de conforto. Continuas a falar apaixonadamente sobre uma qualquer coisa que não consigo assimilar. Mas ouço. Ouço. Ouço e não me canso de ouvir. O pensamento da solidão persiste porém...

POR: B ( 0:52) | ARQUIVADO EM: Moleskine (Ficção) |

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