ARQUIVO INDIVIDUAL


NAVEGAÇÃO: Anterior | Seguinte | Regressar à Página Principal
25
jul

Esperava sentado na beira do penhasco sentindo os cabelos a esvo�ar com o vento de sentido vertical. Ouvia o som do ar em desloca��o furiosa como se se tratasse da respira��o da forma��o rochosa. Ao fundo o vulto, entre as nuvens cinza-negro que rodopiavam como se se contorcessem de dor. O vulto estava parado, mas talvez n�o � espera. De costas para Andr�. T�o perto mas t�o distanciado pelo abismo que se impunha entre eles. Ao longe o som do mar... Tamb�m ele parecendo expressar dor como se cada embate contra as rochas lhe provocasse les�es no enorme corpo de �gua. � sua volta �rvores de um verde vincado, estranhas, destacando-se do resto da cor cizenta ambiente. E o vulto tomava forma entre a n�voa. As linhas desenhavam-se e ele sabia exactamente quem via. E n�o conseguia conter o rosto que se tornava ansioso e as m�o e os bra�os que se erguiam em direc��o ao vulto. E as pernas que ganhavam vida e que o punham de p�. E os sentidos, que por entre os ru�dos que se intensificavam, tomavam uma consci�ncia mais profunda.
"Que esperas?! Vem!". Ele ouvia e sentia o cora��o bater mais e mais e mais. Uma gargalhada t�o caracter�stica. Uma melodia. "Vem! Vem! Anda da�!". E as pernas que j� n�o dominava avan�aram. "David...!".
O corpo foi agarrado pela m�o forte da gravidade que o arrastou furiosamente para baixo. Tentou libertar-se como se pudesse voar... em v�o... Soltou o grito que lhe comprimia a garganta mas foi ru�do que ouviu. E assustado deixou de lutar tomando total consciencia da queda e do embate que aguardava o seu corpo no final da descida. Sentiu-se quase a atingir o estado incosciente enquanto a acelera��o lhe dificultava cada vez mais o respirar.
E enquanto o corpo leve ganhava a cada segundo mais peso sentiu o vazio que era o seu estado de alma. E a queda que parecia interminavel cessou. Cessou sem a dor que se antecipava e Andr� tentou tomar consciencia de onde estava. Primeiro a posi��o no espa�o. Barriga para baixo. M�os apertadas. Depois consciencia do que era o espa�o. O seu quarto. A sua cama.
O cora��o que batia forte. Os m�sculos que tremiam hesitantes. E pouco a pouco, enquanto a sua mente retornava � realidade vinda da distor��o do sonho, o desespero foi acalmando.
Virou-se de lado, e fitou a parede. Branca. T�o branca e sem sabor. E n�o p�de deixar de sentir que tinha perdido o controlo sobre si h� j� algum tempo. "Tenho de me deixar de atormentar. Tenho de deixar que me atormentes..." pensou. E voltou a adormecer, embarcando num sono vai-e-vem. Mas em mais nenhum sonho voltou ao penhasco.

POR: B (17:13) | ARQUIVADO EM: Moleskine (Ficção) |

Comentários: