jul
"aquele de quem mais gosto morreu hoje... dentro de mim".
Andr olhou a frase que acabara de escrever, de forma quase inconsciente, num pedao de papel abandonado na secretria.
Questionou a veracidade da escrita de uma frase que lhe ecoava na cabea h dias. Questionou se aquele de quem falava era aquele de quem mais gostava realmente. Ento e a familia? Os amigos... os poucos amigos....? Decidiu, ento, que a escala de sentimentos est dividida por grupos. Familia, Amigos, Conhecidos... Senhores que nos atendem nos estabelecimentos e por a a fora. E depois as pessoas vo saltando de grupo para grupo e alguns mantm-se no limbo entre grupos, tornando-se dificil classific-los. E assim, aquele de quem falava era de facto aquele que mais gostava, no grupo daquelas pessoas que nos apertam o peito, nos sofocam a respirao, nos atam a garganta com um n complexo, nos moldam sorrisos no rosto, nos controlam as reaces, nos dominam a cabea e nos povoam a alma de forma persistente e esgotante. Aquelas pessoas em que a estranha frase "Amo-te!" ganha cores e sentidos que em mais nenhuma situao existem.
E assim, aquele de quem mais Andr gostava, tinha morrido dentro dele. Depois de meses de exposio e entrega, telefonemas, mensagens, toques, carinhos, sorrisos. Nada severamente no correspondido, mas que o cansao esgotara de vez. Agora restava coloc-lo noutro grupo, no dos "Bons amigos" onde para o outro sempre esteve. S os mais tolos se mantm a nadar contra a corrente eternamente e Andr decidira afogar o seu amor no turbilho. Em silencio se afastou, em silencio fez um mapa de defeitos de quem gostava, em silencio encontrou mil incompatibilidades. Em silencio deixou o espirito caminhar de novo para a solido de no se gostar de ningum o suficiente para se querer, e acreditar que se pode, voar.
"aquele de quem mais gosto morreu hoje... dentro de mim". Rasgou o pedao de papel como se isso eliminasse as questes. Recostou-se na cadeira e ouviu a sua respirao. Suspirou.
Escolheu o CD do costume, deitou-se da forma do costume, apagou a luz da forma do costume. Como se fosse um ritual. Ouviu as teclas do piano a martelarem-lhe o corao. E sentiu, por mais uma vez na lista de vezes incontavel, o tecto que o comprimia, as paredes que o asfixiavam, e o vazio que se espalhava como uma nuvem negra dentro de si.
"Estou sozinho." verbalizou. E enquanto perdia todo e qualquer dominio sobre si, levantou o som e ouviu "I'm so tired of myself, oh God please take me away. Oh bury me away. And bring someone else." e sem a fora dos ltimos dias deixou-se fugir para o lugar escuro onde sempre esteve e de onde poucos o conseguiam, de vez em quando, tirar. Afogando-se em lgrimas esgotou o que restava das suas energias e deixou-se perder no sono. Sonhou com caras, perguntas e presses. Extenses distorcidas do seu dia-a-dia.









