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Reflexos
Vejo-me ao espelho. Sigo a curva da cara até ao queixo. Toco-me e durante milésimos de segundos tenho medo de trespassar a minha cara com os dedos. Tenho medo de já não ser matéria real. Os dedos tocam na pele e sentem o osso do maxilar. Não me sinto aliviado. A barba já devia ter sido feita. Os lábios estão secos. Os meus olhos parecem desproporcionados do resto do rosto e o nariz parece fora de sítio. Apetece-me ter uma daquelas caras de brinquedo em que dá para desmontar tudo em peças. Vejo os meus olhos com mais atenção, o azul rasgado com tons de verde assente em restos de cinzento. A pupila bem no centro como um buraco negro para a minha alma. Nesta luz consigo ver a minha magreza vincada nas curvas da cara. De repente o reflexo deixa de fazer sentido. É como quando repetimos uma palavra muitas vezes. Há uma altura em que perdemos a certeza de como se diz, como se escreve ou o que significa. Não me conheço. 22 anos e não me conheço minimamente. Vejo os meus gestos em câmara lenta. Os olhos a piscarem. A testa a franzir. As sobrancelhas a aproximarem-se. Imagino o meu rosto a implodir. A ser sugado para dentro dele mesmo. Não sei quem sou. Digo o meu nome em voz alta. Os meus lábios desenham as sílabas do meu nome. Repito-o mais uma vez. Câmara lenta. Viro as costas ao espelho porque me sinto incomodado. Amanhã há mais um reflexo à minha espera.
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