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A vida é estranha. A janela da varanda aberta deixa uma leve brisa entrar para dentro do quarto. A onda de calor espalha-se por toda a cidade de Lisboa e acomoda-se em todos os espaços que não têm o escudo do ar condicionado à sua volta. Dentro do quarto só este pensamento. A vida é estranha. Acabei de me despedir e sinto-me bem. Ricardo não tinha percebido o tempo que passou a trabalhar. Foram três anos sem parar. Dos vinte seis aos vinte e nove anos. As horas pareciam ir-se somando em semanas que nunca acabavam, a não ser nas pequenas interrupções provocadas por alguns feriados e uma folga aqui e ali. A vida social há muito que morrera. Se a minha conta bancária e o meu número de amigos fossem representados em gráficos, seriam duas rectas com declives opostos. Quanto mais dinheiro ganhava mais trabalhava. Opções de vida mal escolhidas. A vida é estranha pensa de novo. Levanta-se e vai até à varanda. Tem apenas uns jeans vestidos. O chão está quente. Tira um cigarro do maço e acende-o. O rio Tejo descansa aofundo. As luzes da ponte tremem. Quanta água evaporará com este calor? Quanta dela voltará em forma de chuva? O Cristo Rei mantém-se no silêncio dos seus braços abertos. Lembra um saltador olímpico a preparar o salto para a piscina. Dois mortais, uma pirueta e o splash na água. Palmas e pontuação. Inspira o fumo do cigarro. Sabe-lhe bem e não é a ameça em forma de letras enormes no maço que o vai fazer parar. Não me posso lamentar. Tive o dinheiro que precisei para comprar tudo o que queria. Ainda tem dinheiro para gastar. Passa um carro lá em baixo. Ouve-se música. Não reconhece os acordes. A música é como a televisão e os noticiários hoje em dia. Tudo lhe parece estranho e distante. É como se não reconhecesse muito o mundo. A vida foi feita de casa para o escritório e do escritório para casa. Sem sobressaltos. Vivida numa bolha. Sem influências do mundo exterior. A realização de que algo estava realmente errado aconteceu dois meses depois do médico já o ter aconselhado a parar e descansar. Era do excesso de trabalho que vinham as noites em claro. Na altura pareceu-lhe um disparate a explicação do médico.
- Ricardo, o seu corpo está demasiado cansado até para conseguir encontrar forças para adormecer.
Não conseguiu conter uma gargalhada quando o bom Dr Fonseca lhe disse isto. Levantou-se e saiu do gabinete do médico. Disparate. Um corpo demasiado cansado para dormir. Dois meses depois veio o acidente. Adormeceu finalmente, mas no local e hora errada. Adormeceu ao volante e atropelou um miúdo de dezanove anos. Nada de muito grave, mas assustador o suficiente. Ficaram os dois hospitalizados. Rui era um estudante universitário a acabar o primeiro ano de faculdade. O atropelamento acabou por causar o chumbo a duas cadeiras. Ricardo decidiu meter baixa para descansar. Agora, após dois meses de descanso despediu-se. Sente-se bem. O cigarro está fumado. Atira o cigarro pela varanda. Mais um prego no meu caixão como se costuma dizer. Who cares. Atravessa a varanda e entra na cozinha. O frigorífico zumbe. Abre-o e retira de lá um iogurte líquido. Sabe-lhe bem o fresco. Bebe-o de uma só vez. No fim enche os pulmões e sente o frio a subir-lhe à cabeça. Coloca a mão na testa. Não ouve os passos vindos da varanda mas sente dois braços abraçarem-lhe o tronco. Duas mãos macias e quentes a deslizarem por ele. Um beijo suave nas costas. Vira-se dentro do abraço. Faz-lhe uma festa na cara.
- Rui... Acordei-te...?
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