ARQUIVO INDIVIDUAL


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21
nov

(...)

A chuva e o vento forte tornam ainda mais difícil o caminho por entre as enormes pedras do paredão, amontoadas pelo Homem na esperança de defender a terra das investidas do mar. Rui equilibra-se como pode e faz o caminho em passos lentos, mas está determinado a chegar mais perto do fim da estrutura rochosa. O desespero provocado pelos últimos acontecimentos fazem-no andar mais para a frente sem pensar no perigo. A chuva intensifica-se e bate-lhe na cara com força. A roupa vai ficando cada vez mais pesada. A camisola de lã encharcada e a ganga das calças colam-se ao corpo e dificultam o progresso dos pés mergulhados em água dentro dos ténis. O piso irregular e o impulso do vento fazem-no cambalear e obrigam-no a deter a queda com as mãos. As arestas afiadas da rocha em que se apoia golpeiam a mão direita de Rui. O grito de dor sai abafado e é imediatamente devorado pelo barulho que o rodeia. Olha para a mão ensaguentada e aperta-a contra o peito, retomando o equilíbrio. Tenta proteger os olhos com a outra mão e olha para o fundo do paredão. Parece-lhe avistar alguém mais à frente. Mete a mão no bolso e tira de lá o telemóvel. Está morto e encharcado. Atira-o enraivecido para o chão e recomeça a caminhar por entre as rochas. Aperta mais a mão para tentar controlar a dor mas sente o corpo mover-se com cada vez mais dificuldade. Vê luz por trás dele e olha para o peugeot distante que deixou parado com as luzes acesas e a porta aberta. Vê um carro a estacionar ao lado e duas pessoas a sairem de dentro dele. Parece ser o Vasco. O outro vulto deve ser a Beatriz. Volta-se para a frente de novo e continua a caminhar. Não me posso distrair. Espera por mim! Mais um passo. Estou quase a chegar!

(...)

POR: B ( 3:46) | ARQUIVADO EM: Moleskine (Ficção) |

Comentários:
Enoch disse:

Bolas! E depois, que acontece??
indecente, isto que fazes! Atias-nos com os teus excertos, crias-nos gua na boca, e depois... Deixas-nos assim, entre-parntesis, qual coitus interruptus...

Em: novembro 21, 2005 1:37 PM
Pongo disse:

lol ya :D

Em: novembro 22, 2005 12:00 AM
nikita disse:

adorei este texto. a descrio do esforo fsico e psicolgico est muito boa.
Ah! verdade! disse que no dizia nem mais uma palavra e ...esqueci-me. eu sou assim, incongruente...
fica bem!

Em: novembro 22, 2005 11:27 PM
Jos Ribeiro disse:

A comparao do Enoch com o coitus interruptos no se ajusta perfeitamente.

Usando linguagem de Manual de Confessor, no coitus interruptus o membro viril retirado do vaso, mas h posterior emisso de smen e deleite ( tudo pegado ).

Ora, o conto est escrito de modo que no h deleite, nem fora, nem dentro.

como se estivssemos naquele momento em que j ouvi ateus impenitentes terem ataques de misticismo ( "Mon Dieu, j'vais jouir, j'vais jouir" ) e ... corta!

Que chacun dveloppe son imagination et atteigne sa jouissance.

Vale,
ZR.

Em: novembro 24, 2005 12:14 AM
Jos Ribeiro disse:

Pensando melhor, no deve ser um ataque de misticismo que leva um gajo a julgar dever informar Deus que est quase a vir-se.

Vejamos: um momento em que um tipo diz o que est dentro dele, sem peias e restries, sem atender a convenes e expectativas.

Nisto, deve ser como na agonia.

Conta Remarque que, na Primeira Guerra Mundial, na zona de ningum entre as trincheiras inimigas, os moribundos chamavam no pelos/as companheiros/as, mas pelas mes.

Na ferida que atravessava o rosta da Europa, desde as praias cinzentas do Mar do Norte at s montanhas verdes do Jura, por de mais de mil dias e mil noites, ouviram-se os maman e os mtterleich. Ainda hoje, ao visitarmos as floresta de cruzes brancas, ouvimos os seus gemidos.

Isto eu posso compreender: Sozinho, a morrer ( morremos sempre sozinhos ), um tipo rev a sua vida e fixa-se no ser humano que no princpio da vida foi para ele mais importante.

( Como gemeria um moribundo criado s por um homem? Ou por um casal de homens? Diria paizinho(s)? Julgo que sim. )

Mas quando um tipo se vem? Supondo que no est a masturbar-se, seria natural que os seus sentimentos e pensamentos se dirigissem para o/a parceiro/a ...

A informao a Deus deve ser sinal de profunda solido.

Vale,
ZR.

Em: novembro 24, 2005 12:40 AM
Jos Ribeiro disse:

Quando eu era pequenino, andaria a pela terceira classe, a professora contou-nos um conto de que me lembrei logo ao ler o do SWM.

a histria de um menino holands que, ao passear, se afasta da aldeia em que vive e se aproxima dos diques que protegem a aldeia. V um buraquinho no dique, por onde escorre a gua, e, sem hesitar, tapa o buraquinho com o dedito. As horas passam, ningum vem, o cu cinzento, o cu da cano do Brel,

Un ciel si gris qu'un canal s'est perdu
Un ciel si gris qu'un canal s'est pendu
Un ciel si gris qu'il faut lui pardonner

transforma-se em cu negro ... e a histria acaba.

Como no conto do SWM, temos o cu, temos o mar, temos a impossibilidade de comunicao, ...

J me aconteceu, adulto, nas muito raras noites em que no durmo bem, sonhar com esta histria, que me contaram h tantos anos - eu sou o menino e a minha angstia indizvel.

Tipos versados em malabarismos Freudianos a quem narrei a histria e o sonho riem-se com ar malandro e dizem: "Pois, ... o dedinho do menino ... no buraquinho ... a razo da tua angstia". Imbecis.

E ainda no comentei directamente a histria do SWM. E quero mesmo coment-la, porque ele escreve muito bem, mas h uns reparos que gostaria de fazer.

J passa da meia-noite e eu sou ave que se deita cedo. Amanh no posso. F-lo-ei depois de amanh.

Vale,
ZR.

Em: novembro 24, 2005 1:08 AM