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Eu sei que o tecto é branco mesmo que agora, na escuridão, não consiga distinguir correctamente as cores. É a quarta noite que não durmo. Há um filme onde alguém diz que quando se tem insónias nunca se está a dormir mas também nunca se está verdadeiramente acordado. Fecho os olhos mais uma vez. Nada. No início ainda sentia uma electricidade que me percorria o corpo e se acumulava no estômago. Uma espécie de ansiedade descontrolada, mas agora é só vazio. Nem tenho vontade de rebolar na cama e encontrar uma posição melhor. Fico só assim parado, de barriga para cima, braços esticados ao longo do corpo e cabeça afundada na almofada. Ontem imaginei que estava debaixo de água. Imaginei que todo o quarto estava submerso. Conseguia ver os peixes a nadarem e a contornarem o candeeiro do tecto, no silêncio e calma da noite. Foi engraçado mas pouco eficaz. Não dormi. Hoje não imagino nada. Penso na cor do tecto e como ela condiz com o branco das paredes, dos lençóis e da minha mente. Hoje não me vou levantar daqui. Vou continuar a olhar para cima. Vou esperar calmamente pela luz que há-de dominar devagar mas com firmeza o escuro, até que deste só restem sombras. Vou esperar que o telemóvel comece a tocar à hora programada. E depois vou passar dormente pelo dia até chegar novamente à noite. E comigo vai estar a esperança de finalmente dormir.
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