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Há vinte e três anos atrás.
A areia morde-lhe os pés pequenos escurecidos pelo sol de Junho. O Pai explicou-lhe na noite anterior que cada grão de areia foi um dia uma rocha grande que a chuva, o vento e tempo partiram em bocadinhos pequeninos. "bocadinhos pequeninos como tu!" um toque na ponta do nariz. Uma gargalhada e uma festa no cabelo loiro antes de apagar a luz. "Onde foi o sol?". Os olhos grandes, azuis e sedentos de respostas. "O sol está no outro lado do mundo." Respostas. Ar pensativo e mais perguntas. "Onde é o outro lado do mundo?". Mais uma gargalhada. "Amanhã, quando o sol voltar, digo-te onde é o outro lado do mundo". Será que aqui é o outro lado do mundo?
A Mãe caminha mais à frente. É mais desligada que o Pai. Longe do mundo das perguntas e dos sonhos que vivem na sua cabeça. Acelera o passo. As pernas curtas tentam apanhar as pegadas da mãe sem sucesso. A bola de praia insuflável a que vem abraçado torna a caminhada mais complicada. Logo à noite vai perguntar ao Pai porque é que a bola não voa como os balões. Porque é que cai no chão mesmo quando se esforça para a lançar bem alto em direcção ao céu. O balde e a pá balançam na mão da Mãe. O vestido branco e o cabelo loiro dela dançam com o vento. Corre para ela. Quer agarrar-lhe a ponta do vestido. Pedir que pegue nele, que o levante no ar para ver o que ela vê. Quer agarrar-se ao pescoço dela e dar-lhe um beijo na cara.
A bola foge-lhe das mãos e no meio da corrida dá-lhe um pontapé chutando-a para a frente da Mãe e fazendo-a rolar duna abaixo. A Mãe corre para a apanhar mas a bola continua imparável. Faz tabela num carro estacionado e avança para o caminho de terra batida. A Mãe olha para trás com um olhar azul reprovador. Dizem que os olhos dele são os olhos dela mas com a doçura do Pai. A Mãe vira repentinamente a cabeça para a esquerda como se alguma coisa finalmente lhe tivesse chamado a atenção. Por momentos ele pensa que a cabeça da Mãe também está cheia de perguntas como a dele e que alguma coisa se ligou dentro dela. Só se apercebe de alguma coisa a arranhar o chão da estrada meio segundo antes do som seco do carro a colidir com o corpo da Mãe, que é arremessado pelo ar ainda com o balde e a pá na mão. Parece rodar e dançar em camera lenta no ar. Só ouve o som da Mãe a cair no chão. O carro estacionado tapa-lhe a visão.
Corre para a berma da estrada e vê o vestido da mãe manchado de vermelho. O corpo está caído no chão de forma estranha. Como uma marioneta cujos fios foram largados repentinamente. Do carro sai um jovem desesperado, de óculos escuros e com as mãos na cabeça. Não sai da berma da estrada. Os pés descalços mantêm-se quietos. Correm pessoas vindas de todos os lados. Ninguém parece querer tocar na Mãe que continua imóvel no chão. No outro lado da estrada a bola está encostada à jante brilhante de um carro. Olha para a Mãe. As pessoas aglomeram-se com um ar de choque e curiosidade perante a cena. O homem do carro anda em círculos com os braços no ar. Atravessa a estrada e olha para a bola, coberta pela sua sombra. Fica mais uma vez parado, desta vez com bola bem apertada entre os braços para não fugir outra vez.
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