ARQUIVO INDIVIDUAL


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24
fev

(...)

Pousa a lâmina da faca no braço. Evita o reflexo do metal brilhante. Sustem a respiração um segundo antes de deslizar a faca. Uma linha vermelha é desenhada no braço. A dor é imediata mas a o truque aqui é não a percepcionar de imediato. Deixar a mente deslizar lentamente para fora do corpo. Um reboot ao sistema. O mundo fica a preto e branco. É como se tudo se movesse mais rápido mas também mais lentamente. Como se fossem dois. Como se não fosse ele a cortar-se mas sim uma cópia arrancada de dentro de si que agora quer abrir caminho para dentro dele novamente. Sente a visão começar a desfocar. Imagina-se a entrar para dentro do corte. Não ele. O outro. A linha no braço começa a perder nitidez. Encosta-se para trás ao autoclismo da sanita onde está sentado. Quase jura que consegue ouvir a sua própria voz a segredar-lhe ao ouvido "acorda" no momento em que duas gotas de sangue desmaiam nos dedos do pé descalço. A faca cai no chão e nesse momento a dor é entendida pelo cérebro. Um choque por todo o corpo. Lágrimas nos olhos. Trinca o lábio para não gritar. Agarra rapidamente a toalha e aperta-a contra a ferida. A realidade volta a ter cor. A casa-de-banho parece comprimir-se para o seu real tamanho. O braço lateja. Não sou que faço isto a mim mesmo. É a solidão neste país frio e distante do resto do mundo.

(...)

POR: B (15:03) | ARQUIVADO EM: Moleskine (Ficção) |

Comentários:
x4x_it disse:

Perfeito...

Em: março 5, 2007 4:55 PM