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Se vivesse num filme, esta seria certamente aquela cena para acalmar o espectador. A grande cena para mostrar onde tudo está bem, arrumado e em ordem. Tudo preparado para contrastar com o desastre eminente que o ser humano causa com a sua estupidez natural e absoluto tédio pelas coisas boas. Aquele segundo imediatamente antes de alguém derrubar com as mãos as peças de um tabuleiro de xadrez, colocadas tão estrategicamente dentro dos quadrados pretos e brancos. Aquele instante em que todas as caras têm um sorriso confiante desenhado nos lábios ou mesmo uma gargalhada a vir do fundo do peito. Seria a seguir que o filme iria espiralar por ali abaixo, mostrando como o herói é sim um vilão. Que as boas intenções eram só um degrau para os seus objectivos maléficos. Sim. Esta cena serve só para verem como ele é e sempre foi uma má pessoa. Nunca conseguira acalmar esta imagem. Esta sensação de corrida contra a parede. Um galopar acelerado para o desastre. Ao fim deste ano e meio ainda não se sentia completamente ele ali deitado naquela cama, sentado naquela mesa, recostado naquele sofá. Era uma espécie de ele mas nunca ele mesmo. Uma emulação, um programa, uma interface. É tudo uma mentira! Sou um mentiroso. E o mais estranho é a vontade de não ser nada disso. A vontade de se puxar de dentro de si mesmo. De arrancar o coração ainda a bater e pousá-lo nos lençóis brancos e gritar "há outro eu aqui dentro! Um eu que não conheces!" enquanto o sangue vermelho se espalha pelo tecido. Abre os olhos. Respira fundo. Procura acalmar-se. Está tudo bem. Volta a fechar os olhos. Está tudo bem.
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