ARQUIVO INDIVIDUAL


NAVEGAÇÃO: Anterior | Seguinte | Regressar à Página Principal
08
nov

(...)

Sobe cada lanço de escadas com a pressa normal das crianças. Como se o mundo estivesse prestes a acabar e cada momento tivesse de ser vivido com rapidez e energia. A prancha mais alta da piscina está a poucos degraus de distância. Procura o ar confiante entre a adrenalina e o sorriso nos lábios. Mais dois. Mais um. Está no topo do mundo. Ou pelos menos no topo do mundo em redor. A felicidade de estar aqui. O Pai lá em baixo. Parecem pequenos insectos. Formigas como aquelas do terraço lá de casa. Se esticar um dedo posso tocar-lhes. Confundi-los. Derrubar aquela fila de chapeus-de-sol amarelos. Sorriso. Dá dois passos em frente e toca com o pé direito na prancha azul que responde balançando para a frente. O topo do mundo não parece tão seguro agora. Respira fundo e dá mais uns passos em frente. Afinal a formiga é ele. Tão pequeno. Despido. Um corpo magro dentro de uns speedos verdes. Mais três passos até ao final da prancha que continua a ondular vagarosamente para cima e para baixo. O sol do meio-dia parece mais brilhante. Tenta agarrá-lo com a mão. A mão é tão pequena que só faz sombra suficiente para tapar os olhos. Olhos azuis da cor da piscina que parece tão pequena vista daqui de cima. Procura o Pai com o olhar. Dorme. Está sempre a dormir. Os médicos podiam dar-lhe um comprimido para acordar. Não percebe porque lhe dão comprimidos para dormir. Olha mais uma vez hesitante para baixo. Parece-lhe que se saltar vai de certeza acertar no cimento cinzento que rodeia a piscina. Olha para trás. O caminho de volta parece maior agora do que era há pouco. Talvez a confiança tenha ficado lá atrás. Sente vontade de chorar. De chamar pelo Pai. Mas o Pai não vai ouvir. Volta-se devagar e inicia o caminho de regresso. A prancha mantém o ritmo. O mundo gira. Acelera o passo. Só consegue pensar na estabilidade da estrutura que está um metro à frente dele. Quando consegue lá chegar apoia-se no corrimão de metal e começa a chorar. Porque chorar ele sabe e consegue. Desce as escadas novamente. Ainda a soluçar. Cruza-se com duas pessoas que olham para ele com ar interrogativo. As escadas são supostas ser de sentido único. Só os fracos as descem. Acelera. Sai a correr do último degrau e atira-se para a piscina. O ruído do mundo lá fora abafado pela água tranquiliza-o. Se ao menos pudesse nadar sempre debaixo de água. Se ao menos fosse um peixe. Nunca mais teria de voltar lá para fora.

(...)

POR: B (14:57) | ARQUIVADO EM: Moleskine (Ficção) |

Comentários: