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Vivermos dentro da vida dos outros da forma mais transparente e facilitadora possível é uma arte perigosa. Porque é fácil deixarmos de pensar em nós. Deixarmos de nos preocupar connosco. Deixar de saber o que queremos e no que não queremos. O que podemos e não podemos sentir. É como perder a identidade de vez em quando. Vamos desligando os interruptores um a um. Levantando menos e menos ondas. Vamos deixando ir até ao ponto de sermos um acessório, uma coisa. Deixamos de ser uma pessoa e passamos a ser um objecto que pode ser agarrado e largado à vontade dos outros. A vontade dos outros comanda. Depois instala-se a sensação de desligamento. Como se o mundo todo estivesse do lado de lá da janela. E a falta de auto-respeito agrava-se. A auto-valorização desaparece. E fica apenas o desejo de apagar de vez a luz, no acto mais egoísta e mais radical possível. Sem alarmes e sem surpresas.
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