out
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O dia está suficientemente claro para se conseguir ver um pouco mais longe do que o habitual. Aqui e ali uma mancha verde. Pergunto-me se serão as árvores que crescem entre os prédios ou se crescem os prédios entre as árvores hoje em dia. Inexplicavelmente está içada uma bandeira do Benfica numa vivenda. Orgulhosamente, como se se tratasse de um símbolo de uma nação. Mais abaixo as cadeiras de plástico de uma esplanada estão desocupadas e desorganizadas à volta de uma mesa sob um chapéu de sol da Buondi. Restos da vida de um grupo que ali esteve sentado a conviver. Que pensarão as pessoas que passaram por ali? O que beberam? Do que falaram? Passa um pequeno grupo de escuteiros na rua, leves como o ar. Cópias uns dos outros dentro do uniforme. Não têm nenhuma preocupação a sério com a vida certamente. Olham de lado para um rapaz que tenta insistentemente abrir a bagageira de um carro vermelho e velho. Sentir-se-á idiota por insistir? Por a chave não fazer o que era suposto? Sentir-se-á idiota por uma coisa tão simples não funcionar? Sentir-se-á frustrado como eu me sinto neste amor que teima em não funcionar? Sinto a tontura do primeiro cigarro do dia na cabeça e sem querer derrubo o cinzeiro. Antecipo o som e os cacos antes dele colidir com o chão. A probabilidade e a lógica dizem-me que se vai partir mas anseio que se mantenha inteiro. Não se mantém e como previsto espalha-se pelo chão frio e rosado. Mecanicamente contorno os vidros e agarro uma vassoura. A porta da cozinha abre-se. - Que aconteceu?
- Nada...
- Pensava que tinhas deixado de fumar.
- Eu também.
(...)









