ARQUIVO DA CATEGORIA 'Moleskine (Ficção)'


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27
mai

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Vivermos dentro da vida dos outros da forma mais transparente e facilitadora possível é uma arte perigosa. Porque é fácil deixarmos de pensar em nós. Deixarmos de nos preocupar connosco. Deixar de saber o que queremos e no que não queremos. O que podemos e não podemos sentir. É como perder a identidade de vez em quando. Vamos desligando os interruptores um a um. Levantando menos e menos ondas. Vamos deixando ir até ao ponto de sermos um acessório, uma coisa. Deixamos de ser uma pessoa e passamos a ser um objecto que pode ser agarrado e largado à vontade dos outros. A vontade dos outros comanda. Depois instala-se a sensação de desligamento. Como se o mundo todo estivesse do lado de lá da janela. E a falta de auto-respeito agrava-se. A auto-valorização desaparece. E fica apenas o desejo de apagar de vez a luz, no acto mais egoísta e mais radical possível. Sem alarmes e sem surpresas.

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POR: B (17:38) | LINK
 
08
nov

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Sobe cada lanço de escadas com a pressa normal das crianças. Como se o mundo estivesse prestes a acabar e cada momento tivesse de ser vivido com rapidez e energia. A prancha mais alta da piscina está a poucos degraus de distância. Procura o ar confiante entre a adrenalina e o sorriso nos lábios. Mais dois. Mais um. Está no topo do mundo. Ou pelos menos no topo do mundo em redor. A felicidade de estar aqui. O Pai lá em baixo. Parecem pequenos insectos. Formigas como aquelas do terraço lá de casa. Se esticar um dedo posso tocar-lhes. Confundi-los. Derrubar aquela fila de chapeus-de-sol amarelos. Sorriso. Dá dois passos em frente e toca com o pé direito na prancha azul que responde balançando para a frente. O topo do mundo não parece tão seguro agora. Respira fundo e dá mais uns passos em frente. Afinal a formiga é ele. Tão pequeno. Despido. Um corpo magro dentro de uns speedos verdes. Mais três passos até ao final da prancha que continua a ondular vagarosamente para cima e para baixo. O sol do meio-dia parece mais brilhante. Tenta agarrá-lo com a mão. A mão é tão pequena que só faz sombra suficiente para tapar os olhos. Olhos azuis da cor da piscina que parece tão pequena vista daqui de cima. Procura o Pai com o olhar. Dorme. Está sempre a dormir. Os médicos podiam dar-lhe um comprimido para acordar. Não percebe porque lhe dão comprimidos para dormir. Olha mais uma vez hesitante para baixo. Parece-lhe que se saltar vai de certeza acertar no cimento cinzento que rodeia a piscina. Olha para trás. O caminho de volta parece maior agora do que era há pouco. Talvez a confiança tenha ficado lá atrás. Sente vontade de chorar. De chamar pelo Pai. Mas o Pai não vai ouvir. Volta-se devagar e inicia o caminho de regresso. A prancha mantém o ritmo. O mundo gira. Acelera o passo. Só consegue pensar na estabilidade da estrutura que está um metro à frente dele. Quando consegue lá chegar apoia-se no corrimão de metal e começa a chorar. Porque chorar ele sabe e consegue. Desce as escadas novamente. Ainda a soluçar. Cruza-se com duas pessoas que olham para ele com ar interrogativo. As escadas são supostas ser de sentido único. Só os fracos as descem. Acelera. Sai a correr do último degrau e atira-se para a piscina. O ruído do mundo lá fora abafado pela água tranquiliza-o. Se ao menos pudesse nadar sempre debaixo de água. Se ao menos fosse um peixe. Nunca mais teria de voltar lá para fora.

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POR: B (14:57) | LINK
 
26
ago

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Se vivesse num filme, esta seria certamente aquela cena para acalmar o espectador. A grande cena para mostrar onde tudo está bem, arrumado e em ordem. Tudo preparado para contrastar com o desastre eminente que o ser humano causa com a sua estupidez natural e absoluto tédio pelas coisas boas. Aquele segundo imediatamente antes de alguém derrubar com as mãos as peças de um tabuleiro de xadrez, colocadas tão estrategicamente dentro dos quadrados pretos e brancos. Aquele instante em que todas as caras têm um sorriso confiante desenhado nos lábios ou mesmo uma gargalhada a vir do fundo do peito. Seria a seguir que o filme iria espiralar por ali abaixo, mostrando como o herói é sim um vilão. Que as boas intenções eram só um degrau para os seus objectivos maléficos. Sim. Esta cena serve só para verem como ele é e sempre foi uma má pessoa. Nunca conseguira acalmar esta imagem. Esta sensação de corrida contra a parede. Um galopar acelerado para o desastre. Ao fim deste ano e meio ainda não se sentia completamente ele ali deitado naquela cama, sentado naquela mesa, recostado naquele sofá. Era uma espécie de ele mas nunca ele mesmo. Uma emulação, um programa, uma interface. É tudo uma mentira! Sou um mentiroso. E o mais estranho é a vontade de não ser nada disso. A vontade de se puxar de dentro de si mesmo. De arrancar o coração ainda a bater e pousá-lo nos lençóis brancos e gritar "há outro eu aqui dentro! Um eu que não conheces!" enquanto o sangue vermelho se espalha pelo tecido. Abre os olhos. Respira fundo. Procura acalmar-se. Está tudo bem. Volta a fechar os olhos. Está tudo bem.

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POR: B (13:36) | LINK
 
24
jun

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As pessoas começavam já a abandonar o recinto, formigas a fugirem da hora de fecho que se aproxima como o sol da linha do horizonte. Familias. Grupos de amigo. Casais de namorados. Mas ele não. As suas companhias eram a toalha abandonada no relvado e a carteira, chaves e relógio dentro de um cacifo à entrada. Sobe apressadamente os degraus de betão. De um em um. De dois em dois. Chega ao topo e contorna a cancela de metal aberta. Lá em cima o vigia recebe-o com um sorriso intrigado:
- "Tanta pressa! Ainda tens tempo. Só fechamos daqui a 5 minutos."
- "Pois." - respiração ofegante - "Eu sei... Mas queria mesmo andar neste mais uma vez."
- "Fazes bem. Não digas a ninguém, mas eu só escolho os melhores..."
- "Os melhores?"
- "Os melhores escorregas para vigiar!" - Pisca-lhe o olho.
- "Ah. Pois." - Embaraço.
- "Preparado?"
- "Sim. Deixa-me só apertar os calções melhor. Não os quero perder pelo caminho."
- "Claro que não queres. Isso só seria interessante para o meu colega lá em baixo não era?"
- "Interessante? Não percebi..."
- "Ahaha. Nada esquece." - Coloca os óculos escuros na cabeça. - "Olha sou o André." - Estende-lhe a mão.
- "Rui... Eu. Sou eu. O Rui. Eu. Chamo-me Rui." - Gagueja e cumprimenta-o.
- "Não te vi com ninguém hoje. Se precisares de boleia para sair da 'escorregolândia' posso dar-ta."
- "Ah... Como sabes que não estou com alguém."
- "Shh! É o meu super poder. Sou conhecido como 'O Vigia'. É o meu trabalho, tonto! Controlar o que se passa."
- "Pensei que o teu trabalho estava limitado aos escorregas."
- "Ora. Não fui eu que vim andar neste escorrega vezes sem conta, pois não?"
- "Oh..." - Cora. Sente uma onda de calor a vir da cara para os pés. Imagina a água a entrar em ebulição e evaporar. - "Sim. Aceito a boleia..."
- "Vá. Apanho-te lá em baixo."
- "Ok..." - Senta-se na boia.
André coloca-se atrás dele para o empurrar para dentro do túnel de plástico. Segreda-lhe ao ouvido antes de o empurrar:
- "Não finjas que te estás a afogar só para me fazeres tirar a t-shirt, OK?"
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POR: B ( 2:10) | LINK
 
27
abr

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... porque com ele era mesmo assim. Sempre no controlo da situação. No primeiro encontro o sorriso confiante e os olhos fixos na presa. Ao primeiro beijo a primeira dentada, a presa ainda se debate, ainda pode fugir. No sexo pela primeira vez já o domínio sobre o corpo alheio sem resistência. Sempre assim. Com todos. Excepto um. Onde foi ele que se deixou levar. Mas é a excepção que confirma a regra. Agora, neste momento, com este novo estranho chamado Ricardo é como sempre foi. Sente o calor da pele dele. As defesas a baixar. Posou-lhe a mão no pescoço e ele fechou os olhos e fez pender a cabeça mais para o lado. Quase sente que consegue meter a mão dentro do corpo dele neste estado de vulnerabilidade. És meu. O pensamento consciente de que está a dominar rodopia na cabeça. Excita-o. Sim, és meu! Aqui. Nestes corredores confusos. No meio destes doentes e acidentados. Por baixo destas placas de direcção com setas e nomes de especialidades médicas. Aqui, embriagado por este típico cheiro de hospital, apanhei-te. És meu!

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POR: B ( 1:39) | LINK
 
08
abr

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Todos falhamos. Repete a mesma frase para o espelho. O reflexo não responde. Fita-o em silêncio com olhos negros reprovadores. Demora algum tempo a perceber que o olhar crítico lhe pertence. Que é ele mesmo que olha para si. Todos falhamos mas não tanto como eu. Veste apressadamente as calças de ganga. Deixou a roupa interior perto do sofá. Não há tempo. O tempo fugiu cabisbaixo quando se deixou beijar no pescoço. Quando inclinou a cabeça para o lado e sorriu. Quando levantou os braços para que a t-shirt fosse arrancada do seu corpo. Tenho de sair daqui. Onde é a saída? A casa parece-lhe um labirinto e ainda nem destrancou a porta da casa-de-banho. A t-shirt está manchada de culpa. Meto nojo. O telefone vibra mais uma vez e sente as lágrimas a quererem libertar-se. Calça os ténis. Respira fundo. Todos falhamos. Dá a volta à chave e abre a porta para o local do crime.
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POR: B (15:27) | LINK
 
24
fev

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Pousa a lâmina da faca no braço. Evita o reflexo do metal brilhante. Sustem a respiração um segundo antes de deslizar a faca. Uma linha vermelha é desenhada no braço. A dor é imediata mas a o truque aqui é não a percepcionar de imediato. Deixar a mente deslizar lentamente para fora do corpo. Um reboot ao sistema. O mundo fica a preto e branco. É como se tudo se movesse mais rápido mas também mais lentamente. Como se fossem dois. Como se não fosse ele a cortar-se mas sim uma cópia arrancada de dentro de si que agora quer abrir caminho para dentro dele novamente. Sente a visão começar a desfocar. Imagina-se a entrar para dentro do corte. Não ele. O outro. A linha no braço começa a perder nitidez. Encosta-se para trás ao autoclismo da sanita onde está sentado. Quase jura que consegue ouvir a sua própria voz a segredar-lhe ao ouvido "acorda" no momento em que duas gotas de sangue desmaiam nos dedos do pé descalço. A faca cai no chão e nesse momento a dor é entendida pelo cérebro. Um choque por todo o corpo. Lágrimas nos olhos. Trinca o lábio para não gritar. Agarra rapidamente a toalha e aperta-a contra a ferida. A realidade volta a ter cor. A casa-de-banho parece comprimir-se para o seu real tamanho. O braço lateja. Não sou que faço isto a mim mesmo. É a solidão neste país frio e distante do resto do mundo.

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POR: B (15:03) | LINK
 
31
jan

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Olha para a esquerda. Olha para a direita. O colega do lado parece estar distraído. Faz rodar a cadeira como quem não quer a coisa e agarra o telefone que está em cima da secretária. Abre a tampa . O telefone faz *clack* e o teclado acende-se. Procura o ar compenetrado de quem está a escrever uma sms. Duas vezes para baixo, uma para a direita. Tecla OK. "Aguarde um momento" e aparece a imagem do que está à sua frente filmado pelo telemóvel. 'Sinto-me um espião!' O colega do lado continua entretido no computador. Olha mais uma vez para a esquerda. Mais uma vez para a direita. O coração acelera. Focar. Tecla capturar. 'Tirei o som do obturador?' Demasiado tarde. *click*! Instintivamente move o telefone para o lado como se estivesse a fotografar outra qualquer coisa. Sorri nervosamente e encolhe os ombros para o colega do lado que despregou a atenção do computador e olha para ele com um ar desconfiado. Cora ligeiramente mas mantém-se firme. Esquerda. Ver fotos. Ultima foto. 'Hum'. Mais um rabo para a colecção. Fecha o telefone. Mais uma volta à cadeira para pousar o telemóvel. O cursor pisca no ecrã. Sorri. Já está.

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Inspirado no post "Pensamentos, Dúvidas e Comentário #75" do Junta-te ao Clube

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POR: B ( 2:24) | LINK
 
29
set

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Há vinte e três anos atrás.

A areia morde-lhe os pés pequenos escurecidos pelo sol de Junho. O Pai explicou-lhe na noite anterior que cada grão de areia foi um dia uma rocha grande que a chuva, o vento e tempo partiram em bocadinhos pequeninos. "bocadinhos pequeninos como tu!" um toque na ponta do nariz. Uma gargalhada e uma festa no cabelo loiro antes de apagar a luz. "Onde foi o sol?". Os olhos grandes, azuis e sedentos de respostas. "O sol está no outro lado do mundo." Respostas. Ar pensativo e mais perguntas. "Onde é o outro lado do mundo?". Mais uma gargalhada. "Amanhã, quando o sol voltar, digo-te onde é o outro lado do mundo". Será que aqui é o outro lado do mundo?

A Mãe caminha mais à frente. É mais desligada que o Pai. Longe do mundo das perguntas e dos sonhos que vivem na sua cabeça. Acelera o passo. As pernas curtas tentam apanhar as pegadas da mãe sem sucesso. A bola de praia insuflável a que vem abraçado torna a caminhada mais complicada. Logo à noite vai perguntar ao Pai porque é que a bola não voa como os balões. Porque é que cai no chão mesmo quando se esforça para a lançar bem alto em direcção ao céu. O balde e a pá balançam na mão da Mãe. O vestido branco e o cabelo loiro dela dançam com o vento. Corre para ela. Quer agarrar-lhe a ponta do vestido. Pedir que pegue nele, que o levante no ar para ver o que ela vê. Quer agarrar-se ao pescoço dela e dar-lhe um beijo na cara.

A bola foge-lhe das mãos e no meio da corrida dá-lhe um pontapé chutando-a para a frente da Mãe e fazendo-a rolar duna abaixo. A Mãe corre para a apanhar mas a bola continua imparável. Faz tabela num carro estacionado e avança para o caminho de terra batida. A Mãe olha para trás com um olhar azul reprovador. Dizem que os olhos dele são os olhos dela mas com a doçura do Pai. A Mãe vira repentinamente a cabeça para a esquerda como se alguma coisa finalmente lhe tivesse chamado a atenção. Por momentos ele pensa que a cabeça da Mãe também está cheia de perguntas como a dele e que alguma coisa se ligou dentro dela. Só se apercebe de alguma coisa a arranhar o chão da estrada meio segundo antes do som seco do carro a colidir com o corpo da Mãe, que é arremessado pelo ar ainda com o balde e a pá na mão. Parece rodar e dançar em camera lenta no ar. Só ouve o som da Mãe a cair no chão. O carro estacionado tapa-lhe a visão.

Corre para a berma da estrada e vê o vestido da mãe manchado de vermelho. O corpo está caído no chão de forma estranha. Como uma marioneta cujos fios foram largados repentinamente. Do carro sai um jovem desesperado, de óculos escuros e com as mãos na cabeça. Não sai da berma da estrada. Os pés descalços mantêm-se quietos. Correm pessoas vindas de todos os lados. Ninguém parece querer tocar na Mãe que continua imóvel no chão. No outro lado da estrada a bola está encostada à jante brilhante de um carro. Olha para a Mãe. As pessoas aglomeram-se com um ar de choque e curiosidade perante a cena. O homem do carro anda em círculos com os braços no ar. Atravessa a estrada e olha para a bola, coberta pela sua sombra. Fica mais uma vez parado, desta vez com bola bem apertada entre os braços para não fugir outra vez.

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POR: B ( 1:10) | LINK
 
15
ago

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"... ao fundo, não se consegue ver o ponto onde o rio se deixa morrer nos braços do mar. Só se avistam os barcos que rasgam o Tejo quando se aproximam mais da ponte. Lisboa está mergulhada numa neblina misteriosa. Claro que quando se usa o nariz, a neblina perde o mistério e passa apenas a ser fumo. Fumo e mais fumo vindo dos incêndios que devoram os pinhais fora da cidade. Encosta a cabeça no apoio do banco. A ponte zumbe por baixo do carro e no telemóvel ainda pisca o envelope da mensagem. Ricardo pousa-lhe a mão na perna, mesmo antes do joelho. Viajam em silêncio. Os cabos de aço vão passando ritmadamente na paisagem enquanto ele continua a olhar pela janela e a pensar naquela paixão que se reacendeu como um fogo de verão."

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POR: B (16:48) | LINK
 
12
jul

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- Chega sempre a altura de largar alguma coisa ou alguém, não chega? Quase que consigo apostar que aqueles casamentos que duram uma vida inteira só sobrevivem porque no lugar do amor que morreu, e deixa-me acrescentar que não gosto nada da palavra 'amor', ficou só o comodismo e o conforto de ter alguém. Ou deixou de fazer sentido procurar alguém novo ou assim. Não achas?
- Mais ou menos. Nem por isso. Sei lá....
- Estou a ser muito pessimista?
- Não mais que o costume...
- Hum... Talvez tenha apenas mais olho para a realidade....
- Ou talvez não. Despacha-te, estou atrasado.
- Não podemos ter uma conversa séria?
- Tipo... Como todos os dias? Ouve. Se queres ser céptico em relação às pessoas e aos sentimentos e aos disparates e a todas as coisas que as pessoas abdicam ou ganham por se relacionarem umas com as outras, fine. Mas, por favor! Pára de repetir isso todos os dias...
- Hum... Se calhar estou a tentar convencer-me...
- God! Aqui vamos nós de novo...

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POR: B ( 0:45) | LINK
 
07
jun

(...)

- "Sabe o que me aconteceu ontem? Estava sentada no sofá, com o comando da televisão na mão, mesmo ao final da tarde. Olhei para a janela e vi o céu rasgado por uma espécie de cor-de-rosa ou cor-de-laranja... Não sei bem. E comecei a chorar. Simplesmente a chorar sem razão aparente. Devo estar a ficar louca! Amanhã vai ser a terceira semana seguida que não saio de casa. Sabe, é como se aos poucos as pessoas, as memórias e todas as coisas se fossem apagando. Imagine um céu estrelado, daqueles bonitos que se vêem da praia sem o clarão da cidade. E imagine que as estrelinhas se vão apagando. Primeiro uma, duas, três. Nem dá conta. E elas continuam sem pressa a apagarem-se até que no fim só vê uma ou outra no meio daquele vazio negro lá no alto. Acho que é a melhor forma de explicar..."
- "Certo... Hum... As suas compras, senhora..." - O rapaz das entregas do supermercado estende os braços, erguendo os dois sacos de plástico. Evita o contacto visual. O embaraço dele contagia-a e trá-la de volta à realidade. Assina apressadamente o comprovativo de entrega. Ele diz "obrigado..." e foge pelas escadas a baixo. Pega nos sacos. Fecha a porta com o rabo. - "Estou definitivamente a ficar louca!"

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POR: B (21:34) | LINK
 
02
mai

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Eu sei que o tecto é branco mesmo que agora, na escuridão, não consiga distinguir correctamente as cores. É a quarta noite que não durmo. Há um filme onde alguém diz que quando se tem insónias nunca se está a dormir mas também nunca se está verdadeiramente acordado. Fecho os olhos mais uma vez. Nada. No início ainda sentia uma electricidade que me percorria o corpo e se acumulava no estômago. Uma espécie de ansiedade descontrolada, mas agora é só vazio. Nem tenho vontade de rebolar na cama e encontrar uma posição melhor. Fico só assim parado, de barriga para cima, braços esticados ao longo do corpo e cabeça afundada na almofada. Ontem imaginei que estava debaixo de água. Imaginei que todo o quarto estava submerso. Conseguia ver os peixes a nadarem e a contornarem o candeeiro do tecto, no silêncio e calma da noite. Foi engraçado mas pouco eficaz. Não dormi. Hoje não imagino nada. Penso na cor do tecto e como ela condiz com o branco das paredes, dos lençóis e da minha mente. Hoje não me vou levantar daqui. Vou continuar a olhar para cima. Vou esperar calmamente pela luz que há-de dominar devagar mas com firmeza o escuro, até que deste só restem sombras. Vou esperar que o telemóvel comece a tocar à hora programada. E depois vou passar dormente pelo dia até chegar novamente à noite. E comigo vai estar a esperança de finalmente dormir.

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POR: B ( 0:09) | LINK
 
27
mar

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- Quando o meu irmão morreu achei tudo muito estranho. Estava convencido que a morte de alguém não me podia afectar. Claro que era uma estupidez porque nunca tinha passado pela morte de alguém. Ao início não me conseguia habituar à ideia. Parecia demasiado irreal para acreditar. Só comecei a vir abaixo quando comecei a pensar em todas as coisas que tinha feito com ele. Os bons momentos. As discussões estúpidas. Todas essas coisas que nunca mais poderiam acontecer de novo. Senti o definitivo da situação e percebi que nenhum acontecimento imprevisto iria mudar o facto de ele estar morto. Foi nessa altura que comecei a ficar mais distante e amargo. Irritava-me a felicidade das pessoas. Acho que no fundo queria que sofressem como eu. Queria que percebessem intimamente o impacto da morte dele. Queria o mundo todo a chorar comigo. Achas que isto significa que sou má pessoa...?
- Não sei...

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POR: B ( 0:16) | LINK
 
29
nov

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"Há um ano celebrámos o teu aniversário com um queque e uma vela. O cliché dos clichés rematado com o cliché ainda maior de, naquele momento, aquele queque e aquela vela serem tudo o que nos fazia falta. A vida é engraçada e dá muitas voltas. Tenho saudades tuas." Apaga o que acabou de escrever e volta a olhar para a tela branca vazia. O cursor pisca vagarosamente. Fecha os olhos e baixa o ecran do portátil. O windows hiberna automaticamente. No escuro do quarto encontra o caminho de volta para a cama. "Tenho saudades tuas..." Fecha os olhos sem sono. "Se ao menos eu pudesse hibernar também."

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POR: B ( 3:25) | LINK
 
21
nov

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A chuva e o vento forte tornam ainda mais difícil o caminho por entre as enormes pedras do paredão, amontoadas pelo Homem na esperança de defender a terra das investidas do mar. Rui equilibra-se como pode e faz o caminho em passos lentos, mas está determinado a chegar mais perto do fim da estrutura rochosa. O desespero provocado pelos últimos acontecimentos fazem-no andar mais para a frente sem pensar no perigo. A chuva intensifica-se e bate-lhe na cara com força. A roupa vai ficando cada vez mais pesada. A camisola de lã encharcada e a ganga das calças colam-se ao corpo e dificultam o progresso dos pés mergulhados em água dentro dos ténis. O piso irregular e o impulso do vento fazem-no cambalear e obrigam-no a deter a queda com as mãos. As arestas afiadas da rocha em que se apoia golpeiam a mão direita de Rui. O grito de dor sai abafado e é imediatamente devorado pelo barulho que o rodeia. Olha para a mão ensaguentada e aperta-a contra o peito, retomando o equilíbrio. Tenta proteger os olhos com a outra mão e olha para o fundo do paredão. Parece-lhe avistar alguém mais à frente. Mete a mão no bolso e tira de lá o telemóvel. Está morto e encharcado. Atira-o enraivecido para o chão e recomeça a caminhar por entre as rochas. Aperta mais a mão para tentar controlar a dor mas sente o corpo mover-se com cada vez mais dificuldade. Vê luz por trás dele e olha para o peugeot distante que deixou parado com as luzes acesas e a porta aberta. Vê um carro a estacionar ao lado e duas pessoas a sairem de dentro dele. Parece ser o Vasco. O outro vulto deve ser a Beatriz. Volta-se para a frente de novo e continua a caminhar. Não me posso distrair. Espera por mim! Mais um passo. Estou quase a chegar!

(...)

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POR: B ( 3:46) | LINK
 
26
out

(...)

- 'Tou. Olá. Era só para te pedir desculpa, ontem pisei um bocado a linha contigo. Sei que não justifica nada mas têm sido tempos complicados e claro que não tens culpa nenhuma. Sabes aquela sensação de vazio? Tenho estado com essa sensação ultimamente. E depois sabes como é, tentas entreter-te com as coisas que vais fazendo e tentas fazer as horas passarem mais depressa e acabas todos os dias frustrado com a sensação de nada feito. Percebes? São estas coisas temporárias que se vão entranhando e enraizando na tua vida e na tua cabeça até te dominarem por completo. E depois é só medo. Medo que nem sequer consegues quantificar e que nem sequer pensas em combater porque parece impossível. E vais-te convencendo que está tudo bem e esperas que as semanas passem umas após as outras com o sentimento de que é só mais essa semana e que alguma coisa vai acontecer na semana seguinte que vai virar a mesa e o rumo da tua vida. E a cada semana em que se mantém tudo exactamente na mesma acumulas mais frustração ainda. Vais-te mecanizando e programando para não pensares e apenas andares para a frente, cego. Compreendes? Se calhar não compreendes nada. Enfim. O que me chateia mais é descarregar em cima de pessoas que não têm absolutamente culpa nenhuma das coisas que me acontecem e tal, e eu vol...
- <O tempo limite para mensagem de voz foi excedido. Se desejar deixar outra mensagem pressione a tecla 5 do seu telefone por favor. Para terminar desligue ou pressione a tecla asterisco.>
- Olá. Sou eu de novo. Era só para concluir porque esta coisa não me deixou acabar. Como eu estava a dizer voltei a descarregar em cima de ti sem necessidade e por isso peço muita desculpa. Liga-me por favor. Adoro-te... Amo-te muito...

(...)

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POR: B ( 2:40) | LINK
 
18
set

(...)

Faz correr a porta do armário pelas guias metálicas e vê o reflexo a deslizar com ela. Observa novamente o corpo nú apoiado nos pés descalços, no chão. Inclina a cabeça um pouco para o lado direito. Depois para o lado esquerdo. O fantasma do espelho segue-o milimetricamente. Encosta a palma da mão na superfície fria do vidro. Quem sou eu? Quem és tu? És eu ao contrário? Tudo o que eu sou ou não sou?

(...)

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POR: B (16:39) | LINK
 
07
ago

(...)

Vasco senta-se na cama. O dia está a começar e já se sente o calor. Beatriz ainda dorme, deitada de barriga para baixo. O lençol tapa-lhe as pernas e o rabo nú.. Podia ser uma foto. 'Dois amantes na cama' seria talvez o título. Em preto e branco. Não. A cores. As costas bronzeadas contrastam com o branco dos lençois e isso ficaria bem. Vasco olha para Beatriz e pergunta a si mesmo para onde foi o desejo? Não sabe e não quer saber. Beatriz respira mais fundo e mexe-se. Espreguiça-se. Roda a cabeça e afasta o cabelo dourado dos olhos. Os olhos. Lanternas azuis. Sorri e olha para ele. Vasco evita o azul quando ela começa a falar:

- Bom dia...
- Olá...
- Dormiste bem?
- Dormi.
- Eu nem por isso... está muito calor...
- Está...
- O que vamos fazer hoje?
- Não sei...
- Estiveste a fumar de novo?
- Estive.
- Oh... Já sabes que te faz mal...
- Sei.
- E sabes que eu não gosto...
- Sim.
- Vais continuar a responder dessa maneira?
- Hum hum.
- És tão estúpido às vezes...
- Sou.

Fica sozinho na cama quando ela se levanta. Ouve a porta da casa-de-banho fechar-se com força e o som da água do chuveiro. A fotografia está estragada. Só ele entre os lençois brancos não ia de certeza ficar bem. Levanta-se também e vai novamente até à janela. Acende mais um cigarro. Ela não vai gostar...

(...)

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POR: B (23:28) | LINK
 
01
ago

(...)

A vida é estranha. A janela da varanda aberta deixa uma leve brisa entrar para dentro do quarto. A onda de calor espalha-se por toda a cidade de Lisboa e acomoda-se em todos os espaços que não têm o escudo do ar condicionado à sua volta. Dentro do quarto só este pensamento. A vida é estranha. Acabei de me despedir e sinto-me bem. Ricardo não tinha percebido o tempo que passou a trabalhar. Foram três anos sem parar. Dos vinte seis aos vinte e nove anos. As horas pareciam ir-se somando em semanas que nunca acabavam, a não ser nas pequenas interrupções provocadas por alguns feriados e uma folga aqui e ali. A vida social há muito que morrera. Se a minha conta bancária e o meu número de amigos fossem representados em gráficos, seriam duas rectas com declives opostos. Quanto mais dinheiro ganhava mais trabalhava. Opções de vida mal escolhidas. A vida é estranha pensa de novo. Levanta-se e vai até à varanda. Tem apenas uns jeans vestidos. O chão está quente. Tira um cigarro do maço e acende-o. O rio Tejo descansa aofundo. As luzes da ponte tremem. Quanta água evaporará com este calor? Quanta dela voltará em forma de chuva? O Cristo Rei mantém-se no silêncio dos seus braços abertos. Lembra um saltador olímpico a preparar o salto para a piscina. Dois mortais, uma pirueta e o splash na água. Palmas e pontuação. Inspira o fumo do cigarro. Sabe-lhe bem e não é a ameça em forma de letras enormes no maço que o vai fazer parar. Não me posso lamentar. Tive o dinheiro que precisei para comprar tudo o que queria. Ainda tem dinheiro para gastar. Passa um carro lá em baixo. Ouve-se música. Não reconhece os acordes. A música é como a televisão e os noticiários hoje em dia. Tudo lhe parece estranho e distante. É como se não reconhecesse muito o mundo. A vida foi feita de casa para o escritório e do escritório para casa. Sem sobressaltos. Vivida numa bolha. Sem influências do mundo exterior. A realização de que algo estava realmente errado aconteceu dois meses depois do médico já o ter aconselhado a parar e descansar. Era do excesso de trabalho que vinham as noites em claro. Na altura pareceu-lhe um disparate a explicação do médico.
   - Ricardo, o seu corpo está demasiado cansado até para conseguir encontrar forças para adormecer.
Não conseguiu conter uma gargalhada quando o bom Dr Fonseca lhe disse isto. Levantou-se e saiu do gabinete do médico. Disparate. Um corpo demasiado cansado para dormir. Dois meses depois veio o acidente. Adormeceu finalmente, mas no local e hora errada. Adormeceu ao volante e atropelou um miúdo de dezanove anos. Nada de muito grave, mas assustador o suficiente. Ficaram os dois hospitalizados. Rui era um estudante universitário a acabar o primeiro ano de faculdade. O atropelamento acabou por causar o chumbo a duas cadeiras. Ricardo decidiu meter baixa para descansar. Agora, após dois meses de descanso despediu-se. Sente-se bem. O cigarro está fumado. Atira o cigarro pela varanda. Mais um prego no meu caixão como se costuma dizer. Who cares. Atravessa a varanda e entra na cozinha. O frigorífico zumbe. Abre-o e retira de lá um iogurte líquido. Sabe-lhe bem o fresco. Bebe-o de uma só vez. No fim enche os pulmões e sente o frio a subir-lhe à cabeça. Coloca a mão na testa. Não ouve os passos vindos da varanda mas sente dois braços abraçarem-lhe o tronco. Duas mãos macias e quentes a deslizarem por ele. Um beijo suave nas costas. Vira-se dentro do abraço. Faz-lhe uma festa na cara.
   - Rui... Acordei-te...?

(...)

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20
jun

(...)

Cheguei finalmente a casa. No topo dos sessenta e cinco degraus esperava-me a enorme porta castanha escura. Enfiei a chave na fechadura e rodei-a quatro vezes. A porta abriu com o ranger que já era habitual. O silêncio da casa só era perturbado pelo zumbido distante do frigorífico. Limpei os pés no tapete como já era habitual. Quando dei o primeiro passo dei conta que tinha pisado qualquer coisa. Olhei para o chão e vi um envelope cinzento debaixo do meu pé esquerdo. Baixei-me e apanhei-o do chão com um ar intrigado. Olhei para trás como se fosse descobrir a pessoa que o colocou por baixo da porta. Fechei a porta e pousei as chaves na mesinha da entrada. Segurei o envelope mistério entre os lábios e peguei nos sacos do supermercado. Fui até à cozinha e pousei-os em cima da mesa de madeira. Voltei a pegar no envelope e fiquei uns segundos a olhar sem muita reacção. Virei-o entre os dedos. Não estava colado. Abri-o e retirei lá de dentro um cartão branco, escrito à mão com tinta azul:

You're the sweet crusader and you're on your way. You're the last great innocent and that's why I love you

(...)

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03
fev

Rui ouvia música deitado na cama. O quarto estava com a porta fechada, com o estore descido e sem a luz acesa. Enquanto a cama se moldava ao seu corpo e a inercia se instalava, a agulha do gira-discos chegou a uma parte riscada. Rui levantou a cabeça e suspirou. Voltou a pousar a cabeça e eventualmente a agulha acabou por saltar o risco. Mais um pedaço de melodia, um piano e uns violinos e Rui ficava mais inerte, embalado pela música até que novamente a agulha embateu noutro risco, fazendo o singular e familiar ruido de um disco riscado. Incomodado Rui sentou-se na cama ouvindo o irritante e repetitivo som da agulha no risco do disco. Pensando que a agulha voltaria a ultrapassar o risco, deitou-se. No entanto parecia não haver nada a fazer. Rui suspirou novamente e pensou em levantar-se e mudar o disco. Sozinho ele não se mudava. Mas a inércia era grande e ele lá ia ficando na cama a ouvir o risco. Saída do nada, pausando momentaneamente a sua vida, entrou no quarto a mãe de Rui. "Estás surdo?! Não vês que o disco está riscado. Não achas que devias desligar aquilo? Muda de disco e abre-me esta janela!" Mas rui continuava deitado e respondeu um "sim" distante e pouco convicto. A mãe continuou "devias mesmo desligar o disco, só está a fazer mal ao aparelho. Mas faz o que quiseres, eu cá nem sei trabalhar com aquilo. Só tu é que o podes parar." e saindo do quarto, fechando tudo de novo, deixou Rui deitado na cama a ouvir o disco riscado. Irritado por o disco não se mudar sozinho e seguindo o conselho lá se levantou. Desligou a música. Abriu a janela e olhou lá para fora :"Quem diria!? Está Sol!"

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29
out

Deitados nesta cama no vazio do quarto respiramos o ar um do outro. Enquanto saboreio o calor que vem de ti penso no dia em que te conheci e no frio que sentia. Chovia como chove agora lá fora. Ouço-te falar com o mesmo tom simpático com que disseste "Olá" e vejo o mesmo sorriso rasgado com que me brindaste naquele primeiro encontro. Se soubesse naquela altura que estaria tão próximo de ti como estou agora, teria certamente fugido em pânico. Baixar defesas nunca foi a minha especialidade e embora goste de ser invisivel para o mundo, não gosto de ser transparente desta forma reveladora. Nesta transparencia vês o meu coração bater forte quando falas. E sei que eventualmente verás que esse coração bate a medo dentro da insegurança do corpo. Cansar-te-ás certamente de lutar contra os teus e os meus demónios e deixar-me-ás sozinho nesta mesma cama num qualquer dia de chuva. E ao pensar isso sinto um frio a percorrer-me o corpo. Agarro-me mais forte ao teu peito e ouço os sons do teu corpo. Sentes-me e perguntas-me se está tudo bem. Não respondo. Olho para ti. Vejo a imensidão do teu olhar azul. "Está tudo bem?" repetes enquanto olhas para mim preocupado. "Em que pensa essa cabeçinha tonta?". Fazes o ar mais terno que tens. Não consigo evitar sorrir envergonhado. Agarras-te tu também com mais força a mim. Trespassas o meu corpo que é teu. Libertas-me ligeiramente. Ah! o calor do teu corpo, fonte segura de conforto. Continuas a falar apaixonadamente sobre uma qualquer coisa que não consigo assimilar. Mas ouço. Ouço. Ouço e não me canso de ouvir. O pensamento da solidão persiste porém...

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25
jul

Esperava sentado na beira do penhasco sentindo os cabelos a esvo�ar com o vento de sentido vertical. Ouvia o som do ar em desloca��o furiosa como se se tratasse da respira��o da forma��o rochosa. Ao fundo o vulto, entre as nuvens cinza-negro que rodopiavam como se se contorcessem de dor. O vulto estava parado, mas talvez n�o � espera. De costas para Andr�. T�o perto mas t�o distanciado pelo abismo que se impunha entre eles. Ao longe o som do mar... Tamb�m ele parecendo expressar dor como se cada embate contra as rochas lhe provocasse les�es no enorme corpo de �gua. � sua volta �rvores de um verde vincado, estranhas, destacando-se do resto da cor cizenta ambiente. E o vulto tomava forma entre a n�voa. As linhas desenhavam-se e ele sabia exactamente quem via. E n�o conseguia conter o rosto que se tornava ansioso e as m�o e os bra�os que se erguiam em direc��o ao vulto. E as pernas que ganhavam vida e que o punham de p�. E os sentidos, que por entre os ru�dos que se intensificavam, tomavam uma consci�ncia mais profunda.
"Que esperas?! Vem!". Ele ouvia e sentia o cora��o bater mais e mais e mais. Uma gargalhada t�o caracter�stica. Uma melodia. "Vem! Vem! Anda da�!". E as pernas que j� n�o dominava avan�aram. "David...!".
O corpo foi agarrado pela m�o forte da gravidade que o arrastou furiosamente para baixo. Tentou libertar-se como se pudesse voar... em v�o... Soltou o grito que lhe comprimia a garganta mas foi ru�do que ouviu. E assustado deixou de lutar tomando total consciencia da queda e do embate que aguardava o seu corpo no final da descida. Sentiu-se quase a atingir o estado incosciente enquanto a acelera��o lhe dificultava cada vez mais o respirar.
E enquanto o corpo leve ganhava a cada segundo mais peso sentiu o vazio que era o seu estado de alma. E a queda que parecia interminavel cessou. Cessou sem a dor que se antecipava e Andr� tentou tomar consciencia de onde estava. Primeiro a posi��o no espa�o. Barriga para baixo. M�os apertadas. Depois consciencia do que era o espa�o. O seu quarto. A sua cama.
O cora��o que batia forte. Os m�sculos que tremiam hesitantes. E pouco a pouco, enquanto a sua mente retornava � realidade vinda da distor��o do sonho, o desespero foi acalmando.
Virou-se de lado, e fitou a parede. Branca. T�o branca e sem sabor. E n�o p�de deixar de sentir que tinha perdido o controlo sobre si h� j� algum tempo. "Tenho de me deixar de atormentar. Tenho de deixar que me atormentes..." pensou. E voltou a adormecer, embarcando num sono vai-e-vem. Mas em mais nenhum sonho voltou ao penhasco.

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11
jul

"aquele de quem mais gosto morreu hoje... dentro de mim".
André olhou a frase que acabara de escrever, de forma quase inconsciente, num pedaço de papel abandonado na secretária.
Questionou a veracidade da escrita de uma frase que lhe ecoava na cabeça há dias. Questionou se aquele de quem falava era aquele de quem mais gostava realmente. Então e a familia? Os amigos... os poucos amigos....? Decidiu, então, que a escala de sentimentos está dividida por grupos. Familia, Amigos, Conhecidos... Senhores que nos atendem nos estabelecimentos e por aí­ a fora. E depois as pessoas vão saltando de grupo para grupo e alguns mantém-se no limbo entre grupos, tornando-se dificil classificá-los. E assim, aquele de quem falava era de facto aquele que mais gostava, no grupo daquelas pessoas que nos apertam o peito, nos sofocam a respiração, nos atam a garganta com um nó complexo, nos moldam sorrisos no rosto, nos controlam as reacções, nos dominam a cabeça e nos povoam a alma de forma persistente e esgotante. Aquelas pessoas em que a estranha frase "Amo-te!" ganha cores e sentidos que em mais nenhuma situação existem.
E assim, aquele de quem mais André gostava, tinha morrido dentro dele. Depois de meses de exposição e entrega, telefonemas, mensagens, toques, carinhos, sorrisos. Nada severamente não correspondido, mas que o cansaço esgotara de vez. Agora restava colocá-lo noutro grupo, no dos "Bons amigos" onde para o outro sempre esteve. Só os mais tolos se mantém a nadar contra a corrente eternamente e André decidira afogar o seu amor no turbilhão. Em silencio se afastou, em silencio fez um mapa de defeitos de quem gostava, em silencio encontrou mil incompatibilidades. Em silencio deixou o espirito caminhar de novo para a solidão de não se gostar de ninguém o suficiente para se querer, e acreditar que se pode, voar.
"aquele de quem mais gosto morreu hoje... dentro de mim". Rasgou o pedaço de papel como se isso eliminasse as questões. Recostou-se na cadeira e ouviu a sua respiração. Suspirou.
Escolheu o CD do costume, deitou-se da forma do costume, apagou a luz da forma do costume. Como se fosse um ritual. Ouviu as teclas do piano a martelarem-lhe o coração. E sentiu, por mais uma vez na lista de vezes incontavel, o tecto que o comprimia, as paredes que o asfixiavam, e o vazio que se espalhava como uma nuvem negra dentro de si.
"Estou sozinho." verbalizou. E enquanto perdia todo e qualquer dominio sobre si, levantou o som e ouviu "I'm so tired of myself, oh God please take me away. Oh bury me away. And bring someone else." e sem a força dos últimos dias deixou-se fugir para o lugar escuro onde sempre esteve e de onde poucos o conseguiam, de vez em quando, tirar. Afogando-se em lágrimas esgotou o que restava das suas energias e deixou-se perder no sono. Sonhou com caras, perguntas e pressões. Extensões distorcidas do seu dia-a-dia.

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POR: B (15:26) | LINK